CAPAAC:  ainda não sei o que significa essa sigla. Centro de Acompanhamento Psiquiátrico....... (aquela carinha pensando) Não procurei saber.

Pela segunda vez na minha vida, fiquei exatos 12 dias naquele inferno. Tá, tem lugares bem piores. Mas aquele ambiente suga a sanidade de quem ainda a tem.

Três corredores extensos, cheios de portas com plaquinhas. “Terapia Ocupacional”, “Serviço Social”, “Psicólogo”, entre outras... Juntamente com a parede do refeitório e do posto onde ficavam as enfermeiras formavam – ao centro – uma pequena pracinha. Cinco bancos verdes feitos de ferro, doados por uma empresa da cidade ficam espalhados ali. Uma arvore aparentemente centenária abriga diferentes pássaros e algumas vezes no dia, os macacos brincavam pelos seus galhos.

 - OLHEM O MACAQUINHO! – Alguém sempre gritava quando eles passavam pelo telhado e pulavam até a árvore, onde deitavam em seu ninho. Afinal, macaco tem ninho?

Cheguei na clínica dormindo, por conta dos remédios que havia tomado. Mas como era a minha segunda vez lá, sabia que tinha passado pelo pronto socorro, o médico havia me consultado, e encaminhado a minha internação. Entrei ainda dormindo por uma das portas dos corredores, fui levada ao meu leito, onde dormi por muitas horas, até uma enfermeira me acordar.

- L. acorde... Seu namorado veio te ver. – Era a hora da visita, que acontecia todos os dias das 14:30 até as 16 horas. Seis pessoas podiam entrar por dia, sendo três de cada vez.

Levantei um pouco tonta e só então tive contato com as pessoas que estavam lá. P. é um cara que mora lá, eu me lembrava dele da ultima internação. Ele não fala, apenas pronuncia uma sílaba: “pa”. Foi abandonado ainda criança na porta do Capaac. Os funcionários então o adotaram, o registraram e o tratam como filho daquele lugar.

Algumas histórias dos internos eram comoventes. J. havia perdido seus 3 filhos (algumas pessoas diziam ter sido no dia das mães). A. havia ficado viúva, e recebera a notícia que sua única filha estava n o orfanato.

O procedimento era praticamente o mesmo sempre. Pela manhã, as enfermeiras nos acordavam, nos davam as roupas e toalhas, e todos iam tomar banho. Depois, tomávamos os remédios, comíamos, medíamos a pressão, e íamos para a terapia ocupacional. Lá a gente tinha acesso a material de artesanato, e era o único lugar onde a hora voava.

A Terapia ocupacional ficava nos fundos, e abria apenas 3 horas por dia. Tínhamos cinco refeições por dia: Café, almoço, lanche da tarde, janta e lanche da noite. Comíamos todos juntos. As enfermeiras passavam álcool em nossas mãos, e então comíamos.

Há quem diga que a comida era gostosa. Eu não concordo. Não tinha tempero, e C.E. um dia achou um cabelo na sopa.

Assim que entrei, procurei pessoas sãs para me relacionar. Conheci C.E. e C., dois rapazes que também haviam tentado o suicídio.

Uma das coisas mais difíceis nesses dias, foi lidar com enfermeiras que não deveriam estar ali, e encarar alguns pacientes em estado crítico. T. era um paciente com retardo mental. Ele pronunciava poucas palavras, sempre gritando. “Não!”, “Água!” era o que mais se ouvia. O tempo inteiro. Inteiro mesmo. T. também urinava na roupa e na pequena praça do Capaac, exibindo seu pênis flácido pra quem quisesse ver. Além disso, T. ficava agressivo as vezes, e batia em quem estivesse na sua frente. Na maior parte das vezes, as enfermeiras fingiam não ver essas coisas.

No meu quarto havia uma senhora, O. O. quase não levantava da cama, mas quando levantava, em alguns momentos se jogava no chão em câmera lenta, beeeeem lenta, e soltava um berro que me fazia arrepiar, digno de possessão de filme de terror. Então as enfermeiras a amarravam na cama, e a dopavam, assim ela dormia por bastante tempo.

Assim que entrei, fiquei sabendo de algumas covardias praticadas por enfermeiras – duas exatamente. Elas (Sem nenhuma necessidade) deram um tapa na cara de A., puxaram seu cabelo e riram dela. No mesmo dia, haviam amarrado C. por nada, deixaram-no completamente sem roupa dentro do quarto masculino, colocaram frauda e saíram rindo, da mesma forma que haviam feito com A.

O cheiro do capaac é de hospital. As roupas de cama são trocadas todos os dias, mas parece que o pessoal da lavanderia tem essência de hospital mesmo, porque aquele cheiro deixa qualquer pessoa enjoada.

Todos os pacientes são tratados da mesma maneira pelas enfermeiras. Não importa o seu laudo, todas sempre falam do mesmo jeito, no mesmo tom de voz, como se falassem com crianças.

No final de um dos corredores (perto de onde ficam as enfermeiras) tem uma televisão que sempre fica ligada na globo, e algumas cadeiras.

Nos fins de semanas a hora parece não passar. Não se pode nada eletrônico, nenhum jogo ou algo que eles achem que possa ser letal. E como a Terapia Ocupacional não abre, não tem nada pra fazer. Não tem nada, não tem absolutamente nada pra fazer naquele lugar. Não se pode levar uma bola sequer. Assim a sanidade vai se desfazendo. Sem ocupação, com os gritos de T. ecoando por todo o ambiente. Nada do que falamos é levado a sério. Todos somos tratados como loucos.

O médico vai lá duas vezes por semana. Na terça consulta as mulheres, e na quinta consulta os homens.  Devo a minha mãe por ter ficado apenas 12 dias, o médico queria que eu ficasse mais. Ela rogou por mim e ele me deu alta.

Não tem como dizer que foi um experiência boa. Ficar lá dentro é desesperador. O tempo não passa, você é tido como louco, os remédios te deixam dopado, ou, no mínimo, lesado, os pacientes são de fato doentes mentais e alguns tiram sua paz, repetindo a mesma coisa um milhão de vezes, gritando, te acordando a noite...

E pra finalizar, espero de coração que você que está lendo nunca tenha que passar por isso.