EDUCAÇÃO E MUDANÇA – UMA DIALÉTICA UTÓPICA TROPICA

24 de Outubro de 2012 ROOSEVELT Resenhas 9606

FREIRE, Paulo. Educação e mudança. 24. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

Paulo Reglus Neves Freire, nascido em 19 de setembro de 1921 em Recife, Pernambuco, morto em 02 de maio de 1997 em São Paulo, cursou Direito na Faculdade de Direito de Recife, dedicou-se ao estudo de filosofia da linguagem; porém, nunca exerceu a profissão. Foi como educador dos pobres que Freire encontra seu lugar no mundo. E sobre seu método escreveu várias obras que são até os dias atuais prestigiadas em todo o mundo. A presente resenha crítica traz uma sucinta discussão sobre “Educação e Mudança”, uma das obras desse gênio pernambucano da Pedagogia.

"Educação e Mudança", uma das várias obras escritas por Freire, destaca-se pela objetividade pela qual o educador expõe suas ideias e método relacionados à alfabetização de adultos. A obra foi marcantemente influenciada pelas experiências da práxis (ação/reflexão) do autor. A referida obra teve sua primeira publicação em 1981, a mesma é composta por um total de 46 páginas nas quais o autor apresenta suas ideias em quatro capítulos. O leitor deve estar sempre atento ao jogo de palavras contido no decorrer da elaboração das ideias de Freire, pois, ele cria termos que somente são entendidos à luz do contexto de suas ideias: Quefazer, ação/reflexão, etc.

Educação e Mudança é um livro que apresenta as seguintes ideias freireanas:

Para Paulo Freire, somente o homem, quando em sua reflexão-ação pode "distanciar-se" de sua realidade para depois ser capaz de observá-la para, objetivando-a, transformá-la e, transformando-a, ver-se transformado pela sua própria criação; o homem que é e está sendo no tempo, é em seu tempo um ser histórico, somente este pode comprometer-se. Assim, o professor alienado, na visão de Freire, não pode produzir educação.

São identificados por Freire, na relação do homem profissional e sociedade três tipos de homem: O autenticamente comprometido (solidário, está ao lado dos "precisados"); o falsamente comprometido (solidário até o ponto onde é beneficiado), e o impedido de se comprometer verdadeiramente. Define compromisso profissional como uma dívida do homem para com a sociedade assumida à medida que se fez profissional. O autenticamente comprometido está revestido de solidariedade, de fé, amor e esperança na concepção otimista do educador. Freire também ver nesse educador a necessidade de engajamento com o educando, com a sociedade que lhe qualificou e com o conhecimento. Ele deve estar em constante aperfeiçoamento.

O autor, ao longo do primeiro capítulo do livro, expõe de forma singular a alienação, advinda das importações de ideias e técnicas alheias à nossa realidade. Reflete se na existência de tais importações as mesmas devem ser adaptadas à realidade local. E menciona a criatividade como meio de superação na hora da efetivação das mudanças.

Para Paulo Freire, a razão pela qual se faz necessária a educação, é a percepção humana do próprio inacabamento, da própria imperfeição que se torna motor em busca do aperfeiçoamento ou evolução. Tal busca deve ser feita pelo homem em comunhão com os outros, pois, segundo Freire, a busca solitária só o leva homem a desejar ter mais. Para Freire, o ter e o ser devem ser discutidos pela sociedade. Freire condiciona a busca pela educação à sua ligação ao saber. A percepção da ignorância é força motriz para a busca do saber, do conhecimento e isso é compartilhado com os outros homens.

Freire afirma que o homem é um ser de relações, portanto, um animal social. O homem epistêmico freireano é um ser essencialmente histórico social. Por essa causa, para ele, educar é despertar a consciência do ser histórico, tanto na reflexão sobre o passado, o que lhe apresenta um presente consequente de ações pretéritas, e como na reflexão sobre o futuro, o que lhe apresenta um ser consequente e responsável por seu destino. A percepção da ignorância, e a percepção do tempo histórico devem despertar o aprendente a perseguir o saber até alcança-lo. Essa perseguição é, na visão do pedagogo pernambucano, uma ação com esperança tanto no que diz respeito ao professor como para o aluno.

O pensamento freireano apresentado no segundo capítulo a respeito da consciência bancária da educação nos apresenta um educador professor como detentor do conhecimento e o educando como um ser "oco", um depósito de conhecimento. Isso é, a meu ver, uma grande contribuição para o pensamento pedagógico dialogista. Pois, enxergando assim, o educador pode abrir oportunidades para o diálogo como ferramenta metodológica.

Ainda no mesmo capítulo, Freire nos mostra os estados da consciência como sendo a: Intransitiva - Quase compromisso com a realidade; mágica - Superstições; transitiva - Efetivação da mudança de consciência; crítica - Efetivação do compromisso; fanática - escravidão às ideias e técnicas importadas; ingênua - vê o passado como melhor em comparação ao presente. Não se sabe quais foram os critérios usados por Freire para categorizar as consciências, contudo, o fato dele tê-lo feito aponta para sua pedagogia de consciencialização. Para Freire, a mudança promovida pela escola não passa pelos meios de produção como pensaria Bourdie, por exemplo, mas, somente pela cabeça das pessoas, e a desconstrução das demais consciências diante de uma mente crítica é o ideal da educação.
Para Paulo Freire, o educador é sobre tudo um trabalhador social, e como tal deve fazer a sua opção: Ou adere à mudança que ocorre no sentido verdadeiro da humanização do homem, de seu ser mais, ou fica a favor da permanência da atual situação. Opção que não deve ser imposta aos demais. Sua opção determinará seu papel e suas técnicas de ação. O autor expõe nesta terceira parte da obra, que a tentativa de conscientização dos indivíduos com quem se trabalha, enquanto com eles também se conscientiza, parece ser o papel do trabalhador social que opta pela mudança. Como já foi dito alhures, Freire, realmente acreditava que a conscientização do homem por meio do conhecimento seria, como no mito da caverna, a libertação do mesmo. É a isso que minha humilde pessoa chama de Dialética utópica tropical.

No quarto capítulo Freire expõe seu método. Este precisa, para a sua devida efetivação, de uma prévia reflexão sobre o homem, e de uma análise sobre suas condições culturais – é o mesmo que uma avaliação diagnóstica da comunidade, da escola e da sala de aula. Para Freire, essa é uma condição necessária para qualquer ação educativa. Seu método dialógico é exposto como um método ativo, crítico e criticista. Este deve ter relação horizontal "A" com "B". Onde é forte a presença de “amor, humanidade, esperança, fé e confiança. Um objeto extraído da cultura do aluno sobre o qual se vai dialogar deve ser o conteúdo programático – temas geradores. Tal objeto, sobre o qual é o dialogo, deve ser advindo de um levantamento de "palavras geradoras" ligadas às experiências do aluno. Depois de feito este levantamento se deve selecionar as palavras geradoras de maneira a respeitar os seguintes critérios: Riqueza fonética, dificuldade fonética, valor semântico, aspecto pragmático da palavra. Após isso, se devem criar situações nas quais são colocadas as palavras geradoras em ordem crescente de dificuldades fonéticas. Feito isso, é necessária a elaboração de fichas auxiliares com sugestões simples para os educadores. O educador deve mante-se neutro no processo nunca impondo. As salas de aulas devem ter entre 25 e 30 alunos, ou uma quantidade menor.

O educador para Freire, conforme foi exposto acima, deve ser um cristão personagem do livro “O Peregrino” de John Bunyan. Ele é um cidadão comprometido com o próximo mesmo sabendo que este lhe é concorrente na selva capitalista e que ele está inserido num sistema politico econômico construído historicamente sobre a égide do trabalho braçal escravo cujo atavismo podemos ver nos resquícios que se apresentam tanto no discurso das pessoas no dia-a-dia como no discurso político de nossos sucessivos governos. A fórmula mágica freireana que diz que a conscientização é a força da mudança se explica pelo seu contexto, pelo Brasil de sua época. Hoje, temos outra realidade, articulada sobre novas bases, com fantasmas antigos.
Pensar a escola como um lugar de conscientização não significa mudar a sociedade se de fato esse processo ocorresse. As mudanças sociais vão muito além do que a escola pode fazer. Primeiro porque ela é a “sociedade”, é uma instituição da sociedade e pensa como a mesma. Ela é o reflexo do sistema que a desenhou e a desejou, e que pode muda-la quando achar conveniente ou necessário. Não são os professores que vão mudar a escola, mas, a sociedade que a instituiu para fazer parte de seus sistemas complexos de reprodução. Quando as rupturas ocorrem no amago social, este clama pela escola com que mais se identifica.

Podemos chamar a pedagogia de Freire de pedagogia consciencialista. Para ele a consciência nova inaugura uma nova sociedade como uma epidemia de vírus. Infelizmente, a dialética marxista freireana não considerou que as mudanças sociais transcendem o terreno da educação e mergulhar nos meandros das estruturas econômicas e sistemas e modos de produção. Nada se modifica na sociedade se isso não vier de suas operações concretas e objetivas.

A partir dos anos 50 e 60 com o crescimento do Japão e da Alemanha arrasada com a guerra se começou a estudar o impacto da educação na economia e mobilidade social. Nos estados Unidos, os pesquisadores perceberam que a educação não modifica de forma direta a economia da sociedade, no entanto, contribui muito para a melhoria salarial, para a mobilidade social, e para a formação de trabalhadores melhores capacitados e críticos. Contudo nunca se provou que a educação liberta a sociedade ou que a conscientização (uma frase clichê dos contra-ditadura no Brasil nos anos 60) resolve os conflitos de classe ou apalca o egoísmo e ganância humana. O Cristianismo tem sido pregado em todo o Ocidente a mais de dois mil anos. Vivemos numa sociedade impregnada de fluido linguístico cristão, no entanto, nossa realidade é exatamente o oposto do Cristo ensinou, assim, chamo a pedagogia da consciencialização de dialética utópica tropical.

Os outros aspectos que acho bastante positivos da obra de Freire, discutirei no ensaio – “Utopia dialogista” que será publicado em breve.

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