Conta Comigo

19 de Dezembro de 2013 Khemerson Macedo Resenhas 1266

Obs.: postado originalmente no Bau de Resenhas.

Na década de 1980, enquanto que obras-primas incontestáveis como Gandhi,
ET, Star Wars, Indiana Jones, De Volta Para o Futuro, Touro Indomável
e Amadeus
ganhavam destaque e mérito, uma safra de 'outros' filmes de baixo orçamento
e tecnicamente pouco ambiciosos conquistavam o imaginário cinéfilo daquela
geração com histórias simples mais que cativavam por sua sinceridade e respeito
ao seu público. E são inúmeros aqueles que permeiam nossa lembrança: Karatê
Kid, Os Goonies, Os Heróis Não Têm Idade, Garotos Perdidos
e, é claro, Conta
Comigo,
talvez o filme mais querido desse segundo time (também lembro com
carinho de O Rochedo de Gibraltar, mas esse é minha subjetividade
falando).



Adaptado por Raynold Gideon e Bruce A. Evans a partir do conto The
Body
de Stephen King, Conta Comigo gira em torno dos amigos Gordie
Lachance (Will Weatton), Chris Chambers (River Phoenix), Vern Tessio (Ryan
O'Connell) e Teddy (Corey Feldman) que partem em busca do corpo de um garoto
desaparecido, com a finalidade de obter reconhecimento e fama pelo feito. Dessa
forma, enquanto caminham em direção ao lugar em que suspeitam encontrar o corpo
do garoto, os quatros amigos acabam enfrentando uma pequena odisséia que irá
marcá-los para o resto da vida, num processo de auto-descoberta que será
fundamental como experiência para o crescimento e o amadurecimento de ambos.



Dirigido com eficácia por Rob Reiner, a narrativa tem início com Gordie,
já adulto (interpretado por Richard Dreyfuss), devastado pela notícia da morte
de Chris. A partir daí, este episódio trágico dá início à uma rememoração sobre
a época em que Gordie e Chris, amigos inseparáveis, conviviam junto à Vern e
Teddy. Estabelecendo desde o início que a convivência com Chris no inicio de
sua adolescência foi fundamental para moldar sua personalidade futura, o
roteiro volta no tempo numa época em que certamente foi a mais importante fase
da vida desses amigos, sobretudo por mostrar que a aventura que será retratada
nos próximos 89 minutos foi uma espécie de “rito de passagem” daqueles
personagens, e que será melhor compreendido no final.



Usando da idéia da “busca pelo corpo desaparecido” como desculpa para
desenvolver sua história (um Mcguffin*
clássico
), o conto de King assim como o roteiro de Gideon e Evans, se
utilizam deste recurso como metáfora óbvia da busca pelo auto-reconhecimento e
da auto-descoberta destes personagens que, tendo propósitos claros em sua
jornada (fama e heroísmo), não fazem idéia das implicações (físicas e
emocionais) que esta aventura irá lhes render. Assim, se no início no filme
cada protagonista apresenta uma personalidade bem estabelecida, ao final cada
um apresentará uma “evolução emocional” decorrente desta jornada.



Neste sentido, se no início Gordie se mostra sensível e imaginativo, com
uma insegurança oriunda da difícil relação com os pais que o culpam pela morte
de seu irmão mais velho David, é na convivência com Chris e também a partir das
complicadas situações em que os quatro amigos se metem, que Gordie passa a
mostrar um comportamento bem mais seguro e maduro, ao final. Por outro lado
Chris, que claramente é o líder do pequeno grupo, esconde por baixo de sua
“máscara” de garoto durão, um sujeito afável e com claros problemas familiares,
evidentes na cena em que ele desabafa sobre algo com Gordie. Fechando o elenco,
temos o covarde Vern que além de representar o clichê do “gordinho trapalhão”,
presente em tantos filmes similares, consegue aos poucos mostrar-se bem mais
complexo do que aparentava originalmente. E por último o corajoso Teddy, cuja
relação com o pai o põe na complicada posição de ter sempre que provar algo aos
amigos, o que sabemos ser desnecessário no final das contas.



Fechando o elenco, temos Kiefer Sutherland no papel de “bad boy” que o
marcou em vários filmes seus da década de 80 (cujo auge é certamente o vampiro
de Garotos Perdidos), além de Richard
Dreyfuss, que mesmo tendo pouco tempo de cena, é eficiente ao retratar a
melancolia de um sujeito que, em certo ponto da sua vida, repassou por alguns
instantes as principais memórias de sua adolescência e se deu conta de que
aquelas experiências, mesmo ajudando a moldar sua personalidade na fase adulta,
trouxe o inevitável adicional de que aquelas experiências não voltariam mais,
ficando presas às inconstâncias da memória afetiva.



Pois é exatamente isso que o filme trata (e por isso o filme é tão
querido por gerações inteiras de cinéfilos cujo imaginário foi formado nessa
época): o filme trata do inevitável “rito de passagem” da fase infantil para a
fase adulta. Quando Gordie lembra, nostálgico, de que “nunca mais [tivera] amigos como aqueles que [teve] aos 12 anos”, ele
está constatando algo inevitável e implacável: podemos ter os mesmos amigos de
outrora, mas as afinidades e até mesmo a cumplicidade podem ter mudado, como se
o “encanto” de “ontem” tivesse se perdido “hoje”. Somos a soma de nossas
experiências, e crescer nos traz a inevitável “seleção” de nossas afinidades. Na
bifurcação de nossas vidas, pegamos caminhos opostos e aqueles que ontem foram
fundamentais para o compartilhamento de nossas experiências hoje não passam de
mera lembrança no quadro geral de nossa memória. São fagulhas que perduram
porque insistimos em manter suas chamas por algo que sabemos que nunca mais
será o mesmo.



Assim, se é verdade que “pessoas vão
e vem como garçons num restaurante”,
é verdade também que se lembrar delas
com nostalgia exacerbada anulam nossa percepção para as novas experiências e,
claro, para a construção de novas lembranças. Se o momentoem que Chris Chambers simplesmente desaparece diante de Gordie
representa sua “saída” da vida de seu amigo, este plano é logo substituído pela belíssima seqüência final em que o
adulto Gordie abandona suas nostálgicas memórias e se põe a brincar com seus
filhos, compartilhando novas experiências com aqueles que para ele, realmente
importam naquele momento, fechando o filme com a belíssima mensagem de que as
pessoas podem sim serem breves em nossas vidas, mais os instantes
compartilhados conosco permanecem pra sempre em nossas mentes.






(*) Mcguffin: Freqüentemente associado à Hitchcock, é um dispositivo ou
elemento da trama que chama a atenção do espectador, ou dirige a trama. Em
geral, é algo com que todo personagem está preocupado. [...] é, essencialmente,
algo em torno do qual a história toda é construída e, ainda assim, não tem
nenhuma relevância real. Ou seja, é sobre o que o filme diz que se trata, mesmo
que ele realmente não seja. (Extraído do
site: www.dicasderoteiro.com).
No
caso deste filme, o Mcguffin é a busca pelo corpo, quando na verdade o filme se
trata de algo bem mais intimista.

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