Soneto I - A alegria

Profusão desordenada do instinto,
Ilude o raciocínio quando a tristeza sucumbe,
És entre as entidades a que se incumbe
De anestesiar o desalento que sinto.

Tu convertes o homem insensível
Num nobre de altruísmo extasiante,
E faz do humano por um instante
Um ser iluminado e incoercível.

Catalisadora dos anseios afetivos,
Traz vigor nos momentos exaustivos,
Nos cegando frente às desgraças.

Às vezes um alheamento da realidade,
Em outros um momento de vaidade,
Para nos lembrar das nossas graças.

* * *

Soneto II – A tristeza

Degradação desordenada do instinto,
Ferve a dor quando a esperança sucumbe,
É a entidade que se incumbe
De justificar o desalento que sinto.

Tu resgatas o homem convencido
Da sensação estúpida de onipotência,
E lhe devolve a sublime consciência
De que também pode ser ferido...

Inibidora dos pensamentos positivos
Faz-se amiga nos momentos exaustivos,
Para contemplarmos nossa inferioridade.

Cultiva no peito os sofrimentos,
Para que em meio aos lamentos
Possamos atingir a humildade.

* * *

Soneto III – A raiva

Explosão desordenada do instinto,
Que ergue o ego quando a razão sucumbe:
És a entidade que se incumbe
De esquartejar o desalento que sinto.

Tu resgatas o homem sensível,
Da frivolidade estéril do gemido,
E faz do cambaleante oprimido
Um monstro horrendo e incoercível.

Progenitora dos desejos vingativos,
E traz vigor nos momentos exaustivos
Aos que se cansam do cansaço.

Impeli à guerra o espírito covarde,
E de rancor o coração encarde
Pára trucidar qualquer embaraço.