PRÁTICAS RELIGIOSAS VIRTUAIS

31 de Agosto de 2011 Raphael Lugo Sanches Trab. Acadêmicos 2409

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PRÁTICAS RELIGIOSAS VIRTUAIS: A SALVAÇÃO PELA INTERNET
SANCHES, Raphael Lugo

A história na internet: uma “nova” fonte documental

O presente trabalho focará sua análise no site da "Associação Apostolado do Sagrado Coração de Jesus", onde é oferecida aos fiéis a possibilidade de acender velas on-line, bem como fazer pedidos em torno desse ato simbólico. Discutiremos como esses espaços modificam a relação dos fiéis com as instituições religiosas.
Na célebre obra Apologia da História Marc Bloch cita de um ditado árabe que se constitui em uma síntese sobre a relação dos homens com a história: “Os homens se parecem mais com seu tempo do que com seus pais”. Dessa forma, nada mais digno ao historiador do século XXI do que a inserção da internet em seu “rol documental”, bem como sua utilização como instrumento de armazenamento, banco de dados, etc, para que assim, sejamos, de fato, “homens de nosso tempo” como cita Bloch e não nos esqueçamos que "a diversidade dos testemunhos históricos é quase infinita. Tudo que o homem diz ou escreve, tudo que fabrica, tudo que toca pode e deve informar sobre ele" (BLOCH, 2001, p. 79).
Além disso, devemos levar em consideração que a difusão massiva dos computadores pessoais trouxe aos homens uma “nova” concepção de tempo, em especial do “tempo presente”. Como demonstrou Ciro Flamarion Cardoso, “no bojo do movimento de idéias que se pode, simplificando um pouco, chamar, de pós-modernismo” (FLAMARION, 2005, p. 14) surgiram novas concepções acerca da temporalidade. O passado transforma-se em História em uma temporalidade mais acelerada, sobretudo, quando mediado pelos meios de comunicação atuais, como a internet.
Para Muniz Sodré, por exemplo, é a mídia (jornais, rádio, televisão, TV a cabo, Internet etc.) um dos principais espaços de produção histórica, introduzindo novas práticas de linguagem, novos ambientes culturais, novas relações de poder e parindo uma nova concepção de história (SODRÉ, 1996, 27-28).
Mas, como é de se esperar, novas ferramentas/instrumentos implicam em novas metodologias, novos problemas, novas possibilidades e, também, novas limitações. Nesse sentido, é válida a observação de Antonio Fernando de Araújo Sá:

Um problema que ilustra a fragilidade da evidência na era digital é o apagamento de arquivos e sites da Internet. Assim, a simultânea fragilidade e a heterogeneidade dos dados digitais precisam também de uma reconsideração quanto à responsabilidade pela preservação do passado e como podemos encontrar e definir a evidência histórica. Vale ressaltar que, diferentemente da era do papel, a preservação dos itens digitais é relativamente cara (SÁ, 2008).

Este talvez seja um dos problemas mais relevantes quando almejamos fazer uso da internet como documento histórico; as evidências se tornam mais fugidias. Outra limitação que se sobressai é a legitimidade das informações que circulam nestes sites. Como avaliar esses sites – sobretudo as Comunidades Religiosas Virtuais que nos propomos investigar? Fernando de Araújo Sá nos dá pistas indispensáveis. Em primeiro lugar, diz ele, faz-se necessário identificar o autor ou criador do site, onde estão hospedados e qual o seu domínio. Essa prática inicial nos ajuda a filtrar e identificar os sites de maior credibilidade, bem como os que contenham informações fidedignas, fazendo assim um uso “mais seguro” deste documento.
Sobre essa mesma problemática que o uso da internet pelo historiador implica, Odilon Caldeira Neto em seu artigo intitulado “Breves reflexões sobre o uso da internet em pesquisas historiográficas”, aponta que vários sites veiculam uma grande quantidade de informações sem identificar seus autores, idealizadores, gestores, etc, isso se apresenta como um empecilho ao pesquisador que procura trabalhar com “fontes seguras”. No entanto, ele ainda adverte que:

“Essas questões, porém, não deslegitimam a Internet como instrumento de pesquisa, ou mesmo como fontes para tal, em categoria primária ou secundária. Há, na Internet, um fluxo contínuo de discursos e concepções sobre o presente e o passado que interagem com meios não virtuais na criação e modificação da memória social” (NETO, 2009)

Portanto, apesar das limitações apresentadas, é possível extrair da internet, com cautela, uma série de indícios históricos sobre determinados grupos sociais, como por exemplo, a construção de determinados discursos, memórias, ideologias, práticas, entre outros – neste caso, práticas religiosas virtuais.

Os religiosos na internet: uma “nova” maneira de buscar o sagrado

Nos últimos anos a internet tem alterado as maneiras de se relacionar entre as pessoas e isso tem se manifestado, inclusive, no campo religioso. Muitas instituições religiosas criam sites para angariar fiéis e propagar suas idéias: transmitem cultos e missas on-line, cursos bíblicos, dão conselhos, etc.; algumas vão além, criando as denominadas “Igrejas Virtuais”, onde os fiéis podem realizar práticas religiosas on-line, sem se deslocar a uma “Igreja física”. Nesse sentido, a internet e, em especial, esses espaços de convívio on-line (cyber espaços) se tornam um amplo e complexo campo de investigação para o historiador.
Segundo Airton Luiz Jungblut, os evangélicos são os pioneiros na “colonização da internet” (JUNGBLUT, 2002). Os sites são das mais variadas espécies, desde blogs pessoais a sites institucionais. Neles encontram-se disponíveis alguns traços em comum, como por exemplo: localização, princípios básicos de fé, objetivos institucionais, fotos de templos, escritório e integrantes das instituições, e-mails para contato, links para outras páginas correlatas, indicação de textos da Bíblia para estudo, etc (IDEM). Ou ainda páginas mais complexas, que dispõe de recursos de interatividade, como por exemplo,

“Bíblia on-line para pesquisa, livros de visitas onde se pode deixar registrado as impressões dos visitantes sobre o que viu, fóruns de debates do tipo mural, diretórios de download de onde se pode copiar arquivos e programas, recursos para ouvir música ao fundo e mais raramente salas de conversação do tipo chat (bate-papo), onde se pode conversar em tempo real com outras pessoas que ali estiverem”. (IDEM)

Apesar dos evangélicos serem os pioneiros no uso da internet para a propagação da fé cristã, não tardou muito para que as demais vertentes religiosas – sobretudo, como veremos adiante, a católica – se apropriassem desse meio de comunicação e dos demais, como o rádio e os programas televisivos. Portanto, são criados cyber espaços de cunho religioso, como por exemplo, as comunidades virtuais e as igrejas virtuais . As primeiras foram analisadas e conceituadas na dissertação de Valcenir do Vale Costa, Comunidade Virtual e Comunicação: o site da Igreja Advenstista do Sétimo Dia (COSTA, 2003.). O autor demonstra que “todo esse cenário tecnológico tem suscitado uma transformação no conceito de comunidade, pois as novas e emergentes formas de comunicação passam a coabitar com as formas tradicionais de comunidade” (IDEM, p.14). Faz-se necessário, portanto, dar uma nova conceituação às comunidades já que “essa forma de comunidade, gerada no ciberespaço, traz consigo uma nova dinâmica de atuação a distância dissociada das limitações espaciais e temporais, próprias das comunidades tradicionais ” (IDEM, p.14).
Segundo Costa o provável criador da expressão "comunidade virtual" é Howard Rheingold, que a conceitua da seguinte maneira: “são agregações sociais que surgem na internet, quando pessoas suficientes mantêm suficientes debates públicos, com suficiente sentimento humano para formar redes de relacionamentos pessoais no ciberespaço” (IDEM, p. 22).
Mas a definição adotada por Costa em sua pesquisa é a formulada por Pierre Lévy , para quem:

Uma comunidade virtual não é irreal, imaginária ou ilusória: trata-se unicamente de uma coletividade mais ou menos permanente, que se organiza por intermédio do novo correio eletrônico mundial. (...) Os amantes da cozinha mexicana, os loucos por gatos angorás, os fanáticos por certa linguagem de programação ou os intérpretes apaixonados por Heidegger, antes dispersos pelo planeta, muitas vezes isolado ou pelo menos sem contatos regulares entre si, dispõem agora de um lugar familiar de encontro e troca. Podemos, portanto, sustentar que as chamadas ‘comunidades virtuais’ realizam de fato uma verdadeira atualização (no sentido da criação de um contato efetivo) de grupos humanos que eram somente potenciais antes do surgimento do ciberespaço (LÉVY, 1999, p. 130).

A partir dessa definição, Costa sistematiza as principais características das comunidades virtuais, enfatizando as condições necessárias para que uma comunidade se constitua como tal:

Todavia, para que o fluxo infocomunicacional possa ser caracterizado como uma comunidade virtual, faz-se necessário que algumas condições coordenadas sejam cumpridas: (1) um nível mínimo de interatividade entre seus membros; (2) o sentimento de pertencimento; (3) um nível mínimo de permanência de seus membros; (4) o sentimento de colaboração em busca dos interesses comuns. (COSTA, 2003, P. 24).

Por fim, podemos abordar umas das perguntas mais freqüentes quando se fala em comunidades religiosas e igrejas virtuais: elas vêm para substituir ou complementar as “igrejas físicas”? Ou melhor, na nossa análise em específico: “as comunidades religiosas virtuais vêm para substituir ou complementar as comunidades físicas? Na comunidade que investigaremos a seguir, fica clara a preocupação dos mantenedores em torná-la uma extensão da comunidade física, já que possuem uma sede própria e até mesmo estimulam os seguidores a se dirigirem pessoalmente ou por telefone até ela; ao contrário de muitas Igrejas Virtuais que existem apenas no plano virtual.

Práticas religiosas virtuais: um fenômeno pós-moderno?

Sobre o conceito pós-modernidade, Steven Connor já apontara que “notável é precisamente o grau de consenso no discurso pós-moderno quanto ao fato de já não haver possibilidade de consenso” (CONNOR, 1996, p. 17). Encontraremos, portanto, pesquisadores que defendem a existência da mesma e outros que preferem postular a época em que vivemos como uma extensão da modernidade. Segundo M. Berman,

“esse discurso (pós-modernista) começou a ser propagado a partir da França no final dos anos 1970, sendo seus principais proponentes os rebeldes de 1968, agora desiludidos, orbitando em torno do pós-estruturalismo: Roland Barthes, Michel Foucault, Jacques Derrida, Jean-François Lyotard, Jean Baudrillard e seus incontáveis seguidores. Na década de 1980, o pós-modernismo tornou-se um tema obrigatório das discussões estéticas e literárias dos Estados Unidos” (BERMAN, 2007, p.16).

Para Berman, os pós-modernistas veiculam um discurso de contraposição ao que se entende por modernidade, colocando-os como valores superados e não existentes mais entre nós. É justamente o contrário que Berman defende em sua obra, para ele o pensamento e os valores modernos possuem “uma capacidade de autocrítica e auto-renovação” (BERMAN, 2007, p. 17) e, desta forma, apesar de alguns nuances, perduram até os dias atuais com força e vitalidade. Em outras palavras, a modernidade não acabou, está em plena atuação e constante renovação para atender aos anseios culturais e intelectuais do homem.

E, ainda no primeiro parágrafo da Introdução de sua obra, ele defende que:

“Existe um tipo de experiência vital – experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida – que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo hoje. Designarei esse conjunto de experiências de “modernidade”. Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promove aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação, e transformação das cosias em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo que é sólido desmancha no ar” (BERMAN, 2007, p. 24).

Existindo pós-modernidade ou não, alguns valores postos por Berman como sendo típicos do pensamento moderno, podem ser facilmente identificáveis nas relações sociais (nesse caso, de cunho religioso) mediadas pela informatização; nestas, as fronteiras “geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia” são nitidamente sobrepostas pela dinâmica dos cyber espaços, onde pessoas de diferentes nacionalidades mas com interesses em comum, encontram-se, relacionam-se e empreendem projetos em comum, não obstante estarem distantes geograficamente e pertencerem a diferentes nacionalidades etc. Isso gera o que Berman chama de unidade paradoxal, pois apesar de unir indivíduos de diferentes nacionalidades, ideologias, idades etc. num mesmo espaço (virtual), acabam por desintegrar as relações “tradicionais” que os indivíduos travam em suas localidades de origem; isso ficará nítido quando verificarmos que num mesmo cyber espaço correlacionam-se indivíduos das mais diferentes localidades, idades e até mesmo ideologias.
Já Stuart Hall, trilha o caminho dos mesmos autores citados por Berman como sendo pós-modernistas; ele dedicou sua obra A identidade cultural na pós-modernidade para demonstrar que a partir da década de 1960, novas maneiras de identificação cultural se impunham, baseadas na crítica a modernidade e em novos valores sociais e culturais- valores pós-modernos. Para ele, as identidades (culturais) estão sendo descentradas e fragmentadas na modernidade tardia. Ainda assim, salienta o caráter provisório de suas argumentações, apontando a complexidade do conceito identidade, ainda pouco explorado e bastante controverso, sobretudo entre os cientistas sociais.
Hall afirma que a partir do século XX ocorreu uma mudança estrutural que está transformando a sociedade moderna. Conseqüentemente ocorre uma fragmentação nas paisagens culturais que antes nos forneciam “sólidas localizações como indivíduos sociais”; isso somado a perda de “um sentido de si” estável, resultaria no que ele chama de crise de identidade. Esse é o problema central de sua obra: ele postula que na pós-modernidade, ou na modernidade tardia, ocorre uma crise de identidade. Utilizaremos sua conceituação para a análise a seguir, demonstrando que algumas das práticas religiosas virtuais estão imbuídas desses valores classificados como pós-modernos; por fim, buscaremos situar essa crise de identidade no âmbito religioso, especificamente, na religiosidade mediada pela informatização.

A Associação Apostolado do Sagrado Coração de Jesus: um estudo de caso

Uma indagação permeia toda a obra de Hall: “O que está deslocando as identidades culturais no fim do século XX” (HALL, 1997 p. 67). Para ele, seria o fenômeno que, simplificadamente, chamamos de globalização. E cita Anthony McGrew para melhor classificar esse conceito tão vasto: “a “globalização” se refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e experiência, mais interconectado” (p.67). Mas chama atenção para o fato de que o capitalismo sempre foi globalizante e que, portanto, a globalização não é um fenômeno recente.
Um dos pontos que mais nos iteressam é abordado no tópico “supressão espaço-tempo”; Hall argumenta que sob a globalização o mundo se tornou menor e as distâncias mais curtas, bem como os eventos passaram a ter consequências globais. E, citando David Harvey, demonstra que tanto o tempo como o espaço são coordenadas básicas de todos os sistemas de representação.
No campo religioso, esse fenômeno denominado “globalização”, teve bastante impacto, sobretudo com a crescente utilização da internet pelas instituições religiosas, resultando no encurtamento do tempo e do espaço através das práticas virtuais, como por exemplo, a transmissão de missas e cultos em tempo real ou o envio de-mails com mensagens bíblicas aos fiés.
A Associação do Apostolado Coração de Jesus é uma instituição de natureza civil, cujas atividades não visam o fim lucrativo. É de inspiração católica e seu objetivo – tal como é informado em seu site – é promover a restauração da Fé Católica e da prática religiosa nas famílias brasileiras. Para tal, vem empreendendo diversas campanhas, sobretudo virtuais, onde enviam artigos religiosos (bens materiais que auxiliam na execução da religiosidade) aos fiéis em troca de uma “simbólica doação” financeira.
No site podemos encontrar os seguintes artigos (bens materiais): o Terço das Chagas (que já vem benzido por um sacerdote); a Novena das Rosas de Santa Teresinha; Estampa do sagrado Coração de Jesus (imagem); Escudo do sagrado Coração de Jesus (que garante proteção no dia-a-dia); Escudo do Lar (responsável pela proteção das residências); e o Livro e Terço da Divina Misericórdia.
Sabemos que as mais diversas intituições religiosas não precisaram esperar o advento da internet para colocar à venda artigos religiosos e promessas em torno da aquisição dos mesmos; mas com o uso da rede de computadores, essa venda tornou-se muita mais explícita e disseminada, atravesando fronteiras geográficas, étnicas e raciais.
No site em questão, os fiéis podem se cadastrar gratuitamente e receber novenas, orações e novidades publicadas em seu boletim on-line. Além disso, existe a possibilidade de seguir a associação em questão no Twitter e até mesmo no Orkut, podendo travar um contato mais direto com os demais membros e seguidores. Quanto a esses últimos, o site contava com 1863 (mil oitocentos e sessenta e três) no momento da pesquisa (//boletim-ultima-semana.blogspot.com). Um número bastante significativo, mas pequeno frente ao número de velas virtuais acesas no mesmo momento, cerca de 13 447 (treze mil quatrocentos e quarenta e sete) e do número de velas já acesas durante todo o funcionamento do oratório, cerca de 1436511 (quatorze milhões trezentos e sessenta e cinco mil).
Essa prática religiosa virtual – acender velas on-line – nos interessa mais na presente investigação. O fiel é levado a um Oratório Virtual depois de ler as seguintes indagações: “Você precisa de orações” ou “tem algum ente querido que esteja passando por alguma provação ou problema de saúde”? Adentrando no Oratório Virtual, é prometido ao fiel que “Todos os pedidos que você fizer serão inscritos no Livro de Orações da Associação Apostolado Sagrado Coração de Jesus e suas intenções serão lembradas nas Missas, no Grupo de Orações, nos Conventos e Casas Religiosas que participam deste apostolado, durante o período de 7 dias, da duração de sua vela virtual” . Portanto, quando um fiel resolve acender uma vela e realizar um pedido em torno desse ato simbólico, ele está reforçando os requisitos supracitados referentes às comunidades virtuais: o sentimento de pertencimento e o sentimento de colaboração em busca de interesses comuns, bem como um nível mínimo de interação entre seus membros.
Em seguida, o fiel é arrebatado com uma frase bíblica que vai totalmente ao encontro de seus anseios e que legitima essa prática religiosa: “Ó meu Jesus, que dissestes: “Em verdade, vos digo, qualquer coisa que peçais ao meu Pai, no meu nome, Ele vo-la concederá!
A sala virtual na qual, de fato, se acende as velas, apresenta-se como um interessante, amplo e complexo campo de investigação. Nela nos deparamos com milhares de velas on-line acesas e outras ainda por acender e, além disso, algumas delas com os seus respectivos pedidos. A primeira constatação é que a Associação não exige a real identificação do fiel com o intuito de preservar a privacidade individual. Isso leva a maioria dos fiéis a colocarem pseudônimos, siglas ou apenas o primeiro nome. A segunda constatação é que a Associação também não exige que seja exposto pelo fiel o seu pedido, bastando, para ter seu pedido atendido e realizado, apenas o ato de acender a vela, ter fé e idealizar tal pedido. Como conseqüência, praticamente nenhuma das velas consultadas dispõe de pedidos ou depoimentos, fato que nos leva a afirmar a enorme preocupação dos fiéis na preservação de suas identidades e privacidades. Algumas exceções são os testemunhos deixados em anonimato no dia 16 de março de 2009 e outro de 12 abril de 2001; o fiel nos conta que

“A talvez dois meses atrás acendia uma vela virtual, pedindo que desse ao meu irmão doente, esquizofrenico, a paz espirital, que tanto precisava, visto estar sofrendo muito. A ultima que acendi foi no dia 20/02.E no dia 10/03, às 20h, meu irmão foi atropelado na dutra e faleceu. Fica-nos a saudade, porém a certeza de que o Pai o acolheu em seus braços, libertando-o de todo sofrimento aqui da terra e o conduzindo-o para vida eterna. Agradeço ao apostolado a oportunidade de conhecer e divulgar a minha fé no Sagrado Coração de Jesus” (Postado no Blog em anonimato em 16 de Março de 2009).

Já a segunda testemunha relata que:

“Umas 19h30 de sexta falei com minha irmã por telefone e ela reclamava de dor de cabeça e dores nas costas, no corpo todo. Eu fiquei angustiada com aquela situação, passava um pouco da meia noite e eu estava preocupada com ela, que teve febre e foi ao hospital à tarde e a médica disse que poderia ser dengue. Quando era vivo, meu pai me disse: filha se você precisar de ajuda peça ao Sagrado Coração de Jesus. Então, procurei no google vela virtual do Sagrado Coração de Jesus e encontrei este site. Acendi uma vela e apareceram duas, uma surpresa, talvez um milagre. Mas, a surpresa maior foi saber, de meu cunhado, que na mesma hora que acendi a vela, minha irmã estava tendo um AVC hemorrágico, tinha passado muito mal, teve náuseas, vomitou, o corpo ficou mole até desmaiar. Não foi coincidência, foi um milagre. Graças a Deus e ao Sagrado Coração de Jesus, ela operou a cabeça e está viva, se recuperando. Por isso vim dar este testemunho de fé, para que todos os que necessitarem de ajuda, creiam e não serão abandonados nas horas difíceis, de aflição e desespero. Vocês ainda podem visualizar a vela com nome SELMA (12 de Abril de 2010).

Tendo o pedido atendido ou não, vemos que o ato simbólico de acender uma vela virtual conforta o fiel a enfrentar momentos de dificuldades em sua vida; no primeiro caso, a perda de um ente querido, no segundo, a atribuição de uma melhora na saúde a esse ato simbólico.
Campo mais profícuo em informações devocionais e que, portanto, nos permite melhor auferir o impacto das práticas religiosas virtuais sobre a relação entre fiéis e suas instituições religiosas, assim como na busca pelo sagrado, é a parte reservada aos testemunhos. Nela, fiéis narram suas experiências, curas, acontecimentos, agradecimentos, etc. relacionando muitas vezes tais feitos com a aquisição de algum artigo religioso, tal como os já citados anteriormente. Vejamos o que diz um deles sobre aquisição do artigo religioso “Escudo do Sagrado Coração ”:

“Quase um ano atrás, como gosto de pedalar, às vezes venho trabalhar de bicicleta. O local de trabalho fica a 4,5 km da minha casa. Vindo para o trabalho numa manhã, ao atravessar um sinal, um automóvel me fechou e eu com a bicicleta bati na lateral do carro. A roda do carro passou tão rente que chegou a queimar meu braço. Tenho certeza que naquela hora houve uma proteção especial, pois carrego sempre na carteira o Escudo do Sagrado Coração. Foi como se uma mão me empurrasse ao lado do carro. Somente quebrei meu óculos, e sofri uns arranhões. Agradeço ao Sagrado Coração de Jesus que cuidou de mim naquela hora”. (enviado por e-mail mantendo o anonimato através das possíveis siglas do nome – F.R./BLOG BOLETIM ÚLTIMA SEMANA, 2010).

Nesse primeiro testemunho, e em muitos outros similares, nota-se a atribuição de uma proteção/salvação ao artigo religioso adquirido através da associação. No site são fornecidas informações referentes a violência como “nos últimos anos, a sociedade brasileira entrou no grupo das sociedades mais violentas do mundo” e, enfaticamente, complementa “sem essa proteção especial dos céus, está se tornando uma temeridade transitar pelas ruas cada vez mais violentas de nosso dias” (BLOG BOLETIM ÚLTIMA SEMANA, 2010). Nesse sentido, aquisição do “escudo” é apresentada como uma necessidade básica para se viver no mundo em que vivemos. Outros testemunhos reforçam essa crença, como por exemplo, esse abaixo:

“Quero deixar registrado um fato que ocorreu comigo e meu marido. Um dia fomos fazer compras, e meu filho tinha ficado na casa de minha mãe. Enquanto retornávamos, meu marido ficou no carro, e eu, que sempre levo a minha bolsa comigo, deixei-a no carro e fui pegar o meu filho. Uns 10 minutos após, meu marido subiu apavorado, pois dois rapazes, um deles armado, assaltaram ele. A minha bolsa estava bem à vista. Eles levaram algumas das compras, a pasta de trabalho de meu marido, mas NÃO viram a minha bolsa onde dentro estava o Escudo do Sagrado Coração, mais o meu celular, dinheiro, cartões... Quando os rapazes correram, deixaram cair a carteira com os documentos do meu marido, que caiu dentro do carro. Graças ao Escudo eles não machucaram o meu marido, não levaram o carro, como também não viram o rádio do carro. E para mim, a maior prova de proteção foi que a minha bolsa estava bem à vista, mas eles não a viram, e o nosso prejuízo foi pequeno. Sei que não foi à toa eu ter deixado a bolsa com o Escudo no carro. E agora fico feliz em poder dividir essa proteção com o meu marido, filho e quem mais precisar”. (L.S.B. por e-mail, s/d, BLOG BOLETIM ÚLTIMA SEMANA, 2010).

Boa parte dos testemunhos atribui algum tipo de milagre ou melhoramento em suas vidas ao Sagrado Coração de Jesus. Sobre isso, um fiel diz:

“Conheci o site do Sagrado Coração através da própria internet. Fiz a minha inscrição e recebi uma estampa do Sagrado Coração. A estampa foi colocada numa moldura e fixada em minha casa. Também fiz dela uma foto, que é hoje o papel de parede do meu celular. Depois disso, algumas coisa boas passaram a acontecer em minha vida. Um verdadeiro milagre que pode ser atribuído ao Sagrado Coração de Jesus (Elcio Tampieri/Belo Horizonte –MG; 02 Agosto, 2008, BLOG BOLETIM ÚLTIMA SEMANA, 2010).

Outro testemunho atribui sua aprovação em concurso público à execução da Novena de Santa Teresinha, dizendo:

“Olá, bom dia a todos!! Bom, ano passado, ao olhar meus e-mails, vi a propaganda do sagrado coração de Jesus e pedi a novena de santa teresinha. Há 4 anos estudo p/ concursos, mas nunca tinha sucesso, eu não passava ou então a minha classificação ficava muito longe do número de vagas. Resolvi pedir a Santa Teresinha p/ intercedir por mim p/ eu passar no concurso do TRE-GO. Várias vezes eu duvidei, achando que não iria receber minha rosa. Eu ficava com tanto medo de não receber, que toda hora eu pedia a ela p/ não se esquecer de mim e até prometi que se eu recebesse minha rosa, faria uma outra novena. Umas duas semanas depois recebi minha rosa. Nossa, eu fiquei tão feliz que chorei!!! Esse ano, em fevereiro fiz a prova e em março recebi a nota e a classificação. Passei e fiquei em uma boa classificação!!! Agora só preciso ter paciência p/ o Tribunal me chamar. Estou muito ansiosa e muito feliz!!! Obrigada Santa Teresinha do Menino Jesus e rogai por nós!! Amém (Aurilene Alves/07 de Abril de 2009, BLOG BOLETIM ÚLTIMA SEMANA, 2010).

Ao analisarmos tais testemunhos e os considerarmos como indícios do real, buscamos extrair de seus conteúdos o que chegou até nós (e indagarmos: como e porque chegou até nós) e também o que nos foi omitido (e indagarmos: como e porque nos foi omitido). Procedendo assim, podemos refletir e ver o documento não apenas como mero objeto, mas, e inclusive, como sujeito (MARSON, 1984, p. 52). Dessa forma, indagamos tais testemunhos levando em consideração que um documento “não é espelho da realidade, mas essencialmente representação do real, de momentos particulares da realidade”, sendo o texto um “ato de poder”, e por ser uma representação, “parte do real” (MARSON, 1984, p. 53).
Frente a todos os testemunhos já analisados, nos surge a indagação: “não há nenhum testemunho que relate a ineficácia dos artigos religiosos e sua conseqüente insatisfação”? “Não há nenhum fiel que critique a necessidade de colaborações financeiras para aquisição dos tais artigos”? “Os mantenedores do site poderiam omitir os testemunhos desfavoráveis à imagem da associação, reproduzindo na Web apenas os que lhes fossem favoráveis”?
Dentre os vários testemunhos, encontramos um que manifesta uma “opinião crítica” em relação à contribuição financeira; o testemunho diz “ah é uma pena eu queria muito faser a doaçao e ter um adesico do sagrado coraçao, mas elas pedem de kra 15 reais. eu ñ tenho condiçoes , queria doar uns 05 reais , assim vou ficar sem faser a doaçao. e sem o adesivo que achei lindo.... (Milton; 13 de outubro de 2008). Fora isso, nenhum outro argumento de crítica ou contrariedade foi encontrado.
Por fim, gostaríamos de situar essas práticas religiosas virtuais no contexto do que Hall conceitua como pós-modernidade. Uma característica bem marcante é a diversidade de origem dos fiéis; apesar da maioria dos testemunhos omitirem a cidade onde residem, encontramos testemunhos de Vitória (ES), São Paulo (SP), Brasília (DF), Goiás e Minas Gerais. Isso reflete muito bem seu caráter de comunidade religiosa virtual, onde indivíduos de diferentes localidades, mas com interesses em comum, encontram-se em um cyber espaço para partilharem experiências, construírem projetos etc. Essas comunidades e, em especial a analisada aqui, proporciona aos indivíduos o que Stuart Hall chama de “identidades culturais descentradas” que, segundo ele, seria um fenômeno típico da modernidade tardia, já que o indivíduo moderno – o sujeito individual – que possuía uma identidade centrada e pouco alterada ao longo de sua vida, teria sido solapado.
Já na modernidade tardia, as sociedades e, por conseqüência, os indivíduos, seriam marcados pela diferença, pela existência de vários posicionamentos do sujeito, ou seja, de várias identidades possíveis. Em outras palavras, trata-se de uma jogo de identidades; as usamos e trocamos na medida que se tornam convenientes. Os sujeitos não se identificam mais exclusivamente em termos de classe; é a pluralidade de indentificações que caracteriza o sujeito da modernidade tardia.
Assim ocorre com a identificação religiosa contemporânea, sobretudo sob o impacto da informatização das instituições e práticas religiosas. Os indivíduos não ficam mais presos a uma única identidade religiosa; não se restrigem mais a frequentar apenas a igreja local; nas comunidades religiosas virtuais, por exemplo, o indivíduo de qualquer outra comunidade ou até mesmo crença religiosa, pode partilhar das atividades e fazer parte das discussões sem se identificar ou se compromissar diretamente. Além disso, pode, ao mesmo tempo, participar de várias comunidades religiosas, se identificando ora com uma, ora com outra, fazendo o que Hall chama de “jogo das identidades”.
Em suma, a constituição do sujeito pós-moderno para Hall seria onde ocorre uma fragmentação da identidade unificada e estável; é um sujeito composto de várias identidades, algumas vezes contraditórias e mal resolvidas. Hall afirma que as paisagens culturais também estão entrando em colapso, o que resulta em um processo de identificação mais provisório, variável e problemático. Tal como as identificações religiosas que se delineiam nas comunidades virtuais, nos cyber espaços.
Em síntese, e concatenando com o ditado árabe citado por Bloch – os homens se parecem mais com seu tempo do que com seus pais -, Hall aponta que “A identidade é definida historicamente, e não biologicamente” (HALL, 1997, p.13). Ou seja, homens da era informatizada, da era da informação, serão inevitavelmente marcados pelo tempo, espaço – ainda que seja um espaço virtual/global – e condições sociais de suas épocas nas mais diversas esferas de suas vidas, inclusive na religiosidade. Sendo assim, nas palavras de Hall “A identidade plenamente unificada, completa, segura e coerente é uma fantasia” (HALL, 1997, p. 13), sobretudo na condições pós-modernas aqui delineadas.

Referências bibliográficas

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BLOCH, Marc. Apologia da História ou o Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Ed. Edusc: São Paulo, 2005.
CONNOR, Steven. Cultura Pós-Moderna. Introdução às teorias do contemporâneo. 3° Ed. São Paulo: Loyola, 1996.
COSTA, Valcenir do Vale. Comunidade Virtual e Comunicação: O site da Igreja Adventista do Sétimo Dia. São Bernardo do Campo, 2003, 156 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) Universidade Metodista de São Paulo). (Disponível em: //ibict.metodista.br/tedeSimplificado/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=202).
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Depoimentos:

https://www.blogger.com/comment.g?blogID=5894140542484074466&postID=6080752763513366510&isPopup=true ; acessado em 08 de maio de 2001, às 09:30.
//boletim-ultima-semana.blogspot.com/2008/01/voc-precisa-de-oraes.html. Acessado em 04 de maio de2010, as 18:30.
Blog da Associação Apostolado do Sagrado Coração de Jesus:
//boletim-ultima-semana.blogspot.com.

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